A aliança terapêutica

Dezembro 14, 2021by Joana Rolo

Chamamos aliança terapêutica à relação colaborativa estabelecida entre cliente e psicólogo. Trata-se de uma aliança de trabalho, considerada essencial para o sucesso da intervenção. Estudos acerca das diferenças entre quadros conceptuais reportam que, mais do que os modelos de intervenção, um dos melhores preditores do sucesso terapêutico é o estabelecimento de uma boa relação (Ribeiro, 2019).

As componentes da aliança terapêutica

De acordo com as conceções de Edward S. Bordin (1979), a aliança terapêutica divide-se em três componentes principais:

  • A qualidade do vínculo estabelecido entre cliente e terapeuta, que se reflete na confiança, interesse e respeito mútuos;
  • Os objetivos terapêuticos, aos quais se chega em conjunto no início da intervenção (e que podem sofrer alterações ao longo do acompanhamento);
  • As tarefas terapêuticas, que dizem respeito ao trabalho terapêutico desenvolvido durante o acompanhamento.

Deste modo, a aliança terapêutica pressupõe um compromisso do psicólogo e do cliente com o trabalho terapêutico e com a sua relação. Esta relação é pautada pela confiança de parte a parte, assim como por uma atitude de colaboração no decurso do processo de intervenção psicológica.

Resumindo: a aliança terapêutica assenta na interação entre psicólogo e cliente, no momento presente. Através da componente emocional presente na relação, promove-se o processamento emocional, a emancipação do cliente e o alcance dos objetivos estabelecidos (Rennie, 2000).

 

O que procura o cliente

É, também, importante compreender de que modo as expectativas e necessidades do cliente influenciam o laço terapêutico. Quando procura acompanhamento psicoterapêutico, o cliente vai à procura de:

  • Sintonia afetiva (i.e., que o psicólogo consiga responder às suas necessidades afetivas no momento presente; quando isto é conseguido, a experiência resultante da partilha permite ao cliente progredir no seu processamento e crescimento interno);
  • Aceitação/ausência de julgamento (a pessoa procura sobretudo encontrar alguém em quem se possa depositar sem temer julgamentos ou rejeição);
  • Empatia (o cliente procura, também, alguém que o compreenda ou que tenha uma atitude aberta e empática);
  • Validação (muitas vezes nos momentos mais vulneráveis, a pessoa procura saber que os seus sentimentos, mesmo os mais negativos, são válidos e naturais);
  • Escuta ativa (o cliente precisa de ser ouvido com interesse e atenção, sem grandes interrupções ou obstáculos à sua livre comunicação);
  • Conhecimento (as pessoas procuram obter um entendimento maior acerca do que lhes está a acontecer e procuram ajuda para perceber melhor os seus sintomas e as suas origens. Esperam, por isso, que o profissional detenha conhecimento empírico sobre questões de saúde mental);
  • Comunicação clara (para além de conhecimento, o cliente procura alguém que lho consiga transmitir de forma clara e esclarecedora);
  • Flexibilidade (nós, psicólogos, advogamos muito a flexibilidade; pois bem, não devemos esquecer que também o cliente procura essa competência nos nossos serviços. Assim, devemos estar aptos a adaptar os nossos planos de intervenção às diferentes necessidades e características dos utentes);
  • Investimento (o cliente procura que o psicólogo esteja investido no processo terapêutico; é um caminho de cooperação, o que não deve ser nunca esquecido por nenhuma das partes).

É importante que o psicólogo esteja dotado destas características, na medida daquilo que a sua humanidade lhe permite. No entanto, também convém não esquecer que o psicólogo não é um ser humano perfeito e despido de emoções e que obstáculos na relação podem surgir e devem ser trabalhados, tal como acontece nas outras relações. Os percalços, quando ultrapassados, trazem sempre valiosos ensinamentos pessoais. A relação terapêutica é, também ela, um recurso de aprendizagem (inter)pessoal muito valiosa.

 

Referências:

  • Bordin, E. S. (1979). The generalizability of the psychoanalytic concept of the working alliance. Psychotherapy: Theory, Research & Practice, 16(3), 252–260. https://doi.org/10.1037/h0085885
  • Ribeiro, Eugénia. (2019). Aliança Terapêutica: da Teoria à Prática. Lisboa. Psiquilibrio.
  • Rennie, D. L. (2000). Aspects of the client’s conscious control of the psychotherapeutic process. Journal of Psychotherapy Integration, 10(2), 151–167. https://doi.org/10.1023/A:1009496116174