Insurgiu-se-me a necessidade de trazer uma publicação acerca do comportamento alimentar patológico. Tenho recebido cada vez mais casos de pessoas que apesar de procurarem acompanhamento por outros motivos, acabam por me revelar uma relação com a comida perturbada.
Desta forma, começo por sublinhar que nem toda a relação perturbada com a comida se insere nas perturbações do comportamento alimentar.
Comportamento alimentar perturbado
O comportamento alimentar perturbado acontece quando a pessoa integra padrões alimentares desadaptativos de forma regular. Esses padrões podem ser compostos, por exemplo, por: episódios de compulsão alimentar, restrição alimentar, episódios de fome emocional, regimes dietéticos rígidos e restritivos, controlo obsessivo das calorias ingeridas e das diferenças do peso corporal (colmatando os ganhos com comportamentos compensatórios, como exercício físico exacerbado). As pessoas recorrem muitas vezes a estes comportamentos numa tentativa de autorregulação emocional. A intervenção nestes casos requer, não raras vezes, acompanhamento psicológico e nutricional.
Quando um conjunto de fatores se reúne e o controlo do comportamento alimentar passa a ser um foco central na vida do indivíduo, pode desenvolver-se uma perturbação do comportamento alimentar.
Perturbações do comportamento alimentar
As perturbações do comportamento alimentar estão identificadas como distúrbios psiquiátricos que surgem através da combinação de fatores biológicos, psicológicos, interpessoais e sociais (Associação Americana de Psiquiatria, 2013) e que frequentemente são comórbidas com perturbações psicológicas como a depressão, a ansiedade e a perturbação obsessivo-compulsiva (National Eating Disorders, 2013). A prevalência global das perturbações alimentares aumentou de 3.4% para 7.8% entre 2000 e 2018 (Galmiche, Déchelotte, Lambert, & Tavolacci, 2019). Dentro destas perturbações estão incluídas a Anorexia Nervosa, a Bulimia e a Perturbação de ingestão alimentar compulsiva.
Apesar de isso escapar em muitas das leituras acerca do diagnóstico das perturbações do comportamento alimentar, estes distúrbios vão muito além de alguém não comer ou comer em excesso. Quando falamos de perturbações alimentares, falamos de muitos fatores que concorrem simultaneamente e catadupam a pessoa para um quadro que abala toda a sua estrutura afetiva. As Perturbações do comportamento alimentar são, sobretudo, acerca de emoções, de insuficiência na capacidade autorregulação emocional, de vínculos precoces inseguros… de dúvida, confusão e incerteza.
Tratamento
Por isso é tão importante fazer um trabalho multidisciplinar com quem sofre destes distúrbios. Essa equipa deverá, no mínimo, contemplar o acompanhamento psicológico, nutricional e de psiquiatria de profissionais habilitados para estas questões. Só assim estão assegurados os três principais pilares do tratamento. Em alguns casos, será necessário o internamento. Há também situações que exigem o acompanhamento em endocrinologia e em fisioterapia. A recuperação é um processo lento e complexo, mas possível e tanto mais provável quanto maior e melhor o acompanhamento da pessoa. É essencial que os profissionais estejam cientes das suas capacidades para trabalhar com estas questões. Assim, é imperativo que o encaminhamento para profissionais com habilitações na área aconteça sempre que o técnico não se sinta apto a proporcionar a melhor resposta terapêutica. O bem do paciente deve guiar as escolhas dos profissionais de saúde.
Sigo algumas páginas que se focam com frequência nestas questões e que, a meu ver, fazem um trabalho excecional neste campo, tanto na sensibilização como partilha de informação. São elas a Dra. Alexandra Barros (psicóloga), a Dra. Maria Novais da Fonseca (nutricionista) e a Dra. Margarida Beja (nutricionista). Promover a saúde (física e mental) é ser-se consciente e responsável pelo que se partilha.
A ditadura da beleza, a cultura do corpo magro, a obsessão pelo controlo e seguimento de resultados das dietas são alguns dos obstáculos que os profissionais de saúde deveriam combater – e não alimentar.
Tentemos desenvolvermo-nos sempre, mas sem nos rejeitarmos, tendo respeito pelos nossos limites, saúde e bem-estar. Cuidem-se muito <3
Referências
American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-V. Washington DC: American Psychiatric Association.
Galmiche, M., Déchelotte, P., Lambert, G., & Tavolacci, M. P. (2019). Prevalence of eating disorders over the 2000–2018 period: a systematic literature review. The American Journal of Clinical Nutrition, 109(5). https://doi.org/https://doi.org/10.1093/ajcn/nqy342
National Eating Disorders. (2013). STATISTICS & RESEARCH ON EATING DISORDERS. Retrieved December 18, 2021, from https://www.nationaleatingdisorders.org/statistics-research-eating-disorders

